quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ser ou nao ser nao é mais a questão.

Há muito não via um antigo conhecido de infância - questão de décadas - mas, ao reencontrá-lo num elevador, as primeiríssimas perguntas do indívíduo foram: Tudo bem? Faz oquê? É na sua área? Se ele tivesse ensaiado, suspeito que nao seria tão perfeito, ele trocaria a ordem das frases, comprometeria o personagem. E esse é o fato: foi certeiro porque foi natural, real, à queima roupa. Depois fiquei pensando que poderia ter tido fairplay, "nao vamos falar de trabalho agora", ou "escrevo pra teatro no meu tempo livre", ou qualquer coisa que nos desviasse desse ritual de autorização. Sim, era disso que se tratava - um ritual pós-moderno de autorização e espetacularização. E eu nao articulei nada de alternativo porque desejava a aprovação.

Faz tempo que as coisas já são assim. Temos que dizer o que sabemos, o que fazemos, e se temos êxito nisso tudo, não como meio de as pessoas nos conhecerem, mas para as pessoas nos atribuírem credibilidade. Ter compreendido literaturas difícies nao é mais o bastante, é preciso aprovação num disputado concurso público; ter saldo bancário nao faz sentido se você nao desfilar por aí com roupas de grife e carro do ano. Ser ou nao ser nao é mais a questão. É necessário das provas da sua natureza. É preciso ter desempenho e exibir a performance. Nisso reside nosso direito de falar e ser ouvido. Sem dar provas do que podemos, somos vozes que clamam no deserto. Nao tive as respostas certas para me autorizar junto daquele antigo conhecido. Ele ouviu, deu aquele sorrisinho cordial e me deixou sem nem apenas um aparto de mão depois de tanto tempo. O elevador vazio foi pra mim um Sahara.


Cumprir o ritual da autoridade parece até uma nova prisão, mas tento ver a coisa por outro ângulo. Os desautorizados a falar não nos aborrecem com suas tolices, mas também nao nos brindam com suas riquezas. Pensei mesmo em bulrar o teste, mas não fosse esse teste em outras situações, nao teria mudando pra bem o pensamento de outras pessoas, e pra dividir o que tenho de positivo, preciso passar no teste. Não sou contra a performance, nao sou contra o espetáculo - precisamos dele para fazer o bem. A liberdade nao está em burlar os testes, mas em usá-los para bons motivos. Depois de devidamente autorizados, fazemos a regra, criamos novo critério - e nada impede que ele seja o mais libertário possível.


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